O sol quente, em plena terça-feira, dificultava visualizar os carros e os semáforos no fundo. Eu só imaginava que aquele dia seria um domingo perfeito, porém o destino estava sendo outro. Mais um dia de trabalho que antes era gratificante, depois de um mês, virou vontade de ficar em casa.
Observando o efeito do calor no ar, um pensamento absurdo me pegou de surpresa – Um acidente não seria nada desagradável – O desespero de me afastar desse emprego me corroía tanto que, foi necessário minha mente sacrificar meu corpo como moeda de troca para ter descanso. Com o decorrer do tempo fui entendendo a necessidade de dar um passo para trás e analisar o presente.
Quando resolvi voltar para igreja, tudo começou a se encaixar. Isso ocorreu logo depois de pedir demissão e ter dado um tempo para mim. Incômodo, insatisfação, tristeza, vazio. Essas quatro palavras definiam o que eu sentia, mas desta vez o vazio que antes se aproximava de forma lenta, aumentava.
O pouco do horário livre que deveria ser descanso, era destrinchado em copos de cerveja e palavras passageiras arrodeado de barulho. Eu só conseguia perceber algo em comum entre a cerveja e o ambiente: o gosto amargo que eu detestava que em seguida se transformava em urina cara.
Uma temporada longe de tudo, inclusive dos bares. Os ambientes que eu frequentava precisavam mudar de forma absoluta, para que meus sentidos se recuperassem, e eu pudesse enxergar o que tanto procurava nos lugares errados. Lugares que tiravam, aos poucos, pedaços de mim.
No meio de um estudo bíblico reparei em um detalhe do texto dizendo que os espíritos não são onipresentes, eles não têm as mesmas características que Deus. São criaturas, por isso, a igreja recomenda evitar dizer o nome do seu anjo da guarda para que nenhum mal aconteça. Então pude entender a vulnerabilidade construída com o decorrer do tempo.
Meu anjo da guarda deve ter passado por maus bocados. Porque, no decorrer daquele período, Deus me protegeu e utilizou de todas as ferramentas possíveis para que eu não viesse ter o fim antes do que ele determinou para minha vida. Ao olhar Jesus eucarístico sempre me bate a curiosidade do que ele espera de mim. Diante dessa incerteza, a imagem que vem na minha mente é que preciso ter cautela e tempo para fortalecer o espírito. Além de ser amado por Ele.
O amor que protege, o amor que cura, o amor capaz de criar atributos que nem existem palavras capazes de descrever. Se antes eu suportava um dia após o outro – sem ter nenhum ponto de apoio – hoje eu reencontrei minha base. Então meus dedos da mão direita estranharam quando perceberam que o cigarro que tanto os manchavam, foi substituído por um terço. E um leve tremor de ansiedade. Mas calma. Reza que passa.



